Apresentação
Laura Amanda Salgado iniciou seus estudos em artes na Academia de Belas Artes de Buenos Aires, completando-os no Brasil na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Firmou-se como artista plástica desenvolvendo trabalhos com aquarela, gravura, pintura e escultura. Entre os anos 1980 e 1990, participou de inúmeras exposições em galerias do Brasil, Argentina e Espanha. Colaborou com o renomado designer Jorge Zalszupin no estúdio de design L'Atelier. Desenhou a linha de roupas “Seda pura” pintadas à mão. Fez consultoria em design para o escritório de arquitetura Rappoport. Faleceu em São Paulo em 1998, aos 54 anos.
A partir de uma iniciativa de Patrício Salgado, filho de Laura, com apoio do artista/gravador Prof. Dr. Marcio Périgo, foi elaborado um projeto o qual teve inscrição foi submetida no EDITAL FOMENTO CULTSP – PROAC Nº 37/2024 SALVAGUARDA DE ACERVOS DE MUSEUS. O projeto também teve a colaboração de Xenia Bergman na Gestão de Acervo e a consultoria de design e novas mídias de Alexandre Villares.
O projeto foi contemplado no edital e Patrício Salgado, além de organização, catalogação e higienização das obras, também incluiu no projeto um termo para que fosse feita uma doação, de parte do legado da artista, constituído de mais de uma impressão de cada uma das gravuras em tamanhos diversos, para que serem incorporados no acervo do Gabinete de Estampas da Unicamp. Uma forma de valorização cultural para que este rico material permanecesse preservado em condições museológicas adequadas, e também, utilizado para fins de pesquisa e educação. Esta singela mostra, tem a curadoria de Ana Paula Andrade, e texto de apresentação de Marcio Périgo, exibindo uma parcela destas obras de autoria de Laura Salgado as quais, de agora em diante, fazem parte de nossa coleção.
Como coordenador do Gabinete de Estampas venho a agradecer a generosidade de Patrício Salgado pela doação deste significativo conjunto de obras, de valor inestimável do legado artístico de Laura Salgado, sendo de especial relevância para o aprimoramento o enriquecimento de nosso acervo acadêmico e cultural. Atitude extremamente benéfica para nossas atividades de pesquisa e ensino, além de contribuir para a ampliação do conhecimento sobre a artista dentro do cenário da cultura nacional.
Sergio Niculitcheff
Escrevo estas palavras movido por uma profunda e singular emoção. Laura, minha mãe, faleceu há mais de 25 anos. Este projeto de preservação começou, de forma intuitiva e dolorosa, logo após sua partida, mas só agora, ao higienizar, catalogar e acondicionar cada obra, é que ele verdadeiramente se solidificou. E foi nesse processo meticuloso que finalmente tivemos uma conversa inédita. Ao lado das imagens poderosas que ela esculpiu em negativo na madeira, no metal ou no linóleo, eu li, pela primeira vez com a maturidade necessária, os textos que integravam suas obras. Descobri um mundo novo e denso, que na minha juventude fazia parte do ar que eu respirava, como a água para um peixe que não a enxerga.
Eu e meu irmão, Sebastian, crescemos cercados por lenços, neons, imagens de duendes, corações, cavalos e chapéus num apartamento que, na verdade, era o ateliê dela. A prensa era no meio da sala, o coração da casa, onde também ocorriam aulas de modelo vivo. Tudo que ela fazia – cada gesto, cada projeto – estava diretamente ligado à sua produção artística. Como mulher independente nos anos 70, 80 e 90, criando dois filhos, ela utilizou seus recursos artísticos para nosso sustento e conforto, e, principalmente, para o desenvolvimento incessante de seu trabalho. Era uma força da natureza, carinhosa e intensa, sempre ocupando o espaço e o tempo com uma energia vital que a morte precoce não apagou.
Reencontrar este acervo foi reviver a própria essência da minha mãe - sua força criativa inextinguível e, ao mesmo tempo, sua fragilidade humana tão pungente. Cada obra é um testemunho dessa dualidade: a artista que moldava materiais rígidos com mão firme, e a mulher que, como todos nós, carregava suas vulnerabilidades. As obras que criou me falam especialmente sobre isso - formas que aspiraram à solidez geométrica, mas que confessam, em seu desmanche iminente, a impossibilidade de conter tudo: a dor, o tempo, a vida que escorre.
A gravura é uma das únicas artes em que o processo fica congelado em instantâneos das matrizes e provas. Estes obras, portanto, não são apenas representações formais; são cartografias de sua alma, mapas que traçam os contornos de suas inquietações na tentativa de dar forma ao efêmero, de conter o que não se pode conter, revelando assim a complexidade de relações que habitavam seu universo interior, tão vasto quanto um cubo é simples em sua aparência.
Esta exposição na Biblioteca de Obras Raras da Unicamp é a materialização desse reencontro e brinda a doação de parte de seu acervo de gravuras ao Gabinete de Estampas da Unicamp, que foi viabilizada pelo edital PROAC 2024 de Salvaguarda de Acervos. Que suas gravuras, agora eternamente preservadas em condições museológicas ideais, possam inspirar pesquisas, educar olhares e ampliar o conhecimento sobre esta artista fundamental. Esta doação é mais do que um dever filial, é um ato de justiça histórica e de amor eterno.
Patrício Salgado
Filho de Laura Salgado

