Duendes

"Para el nascimiento de um duende" (1980) gravura em metal sobre papel algodão

Eu e meu irmão, Sebastian, crescemos no ateliê que era nossa casa, entre móveis, duendes, lenços, neons e a prensa no centro da sala. Nossa mãe, Laura, era uma mulher desdobrável, cheia de faces – de frente, verso e um interior vasto a se descobrir. Cada gesto seu, cada projeto para nosso sustento, estava ligado à sua arte. Ela era uma força da natureza, tão breve, e seus infinitos desdobramentos criativos nos criaram e nutriram.

Reencontrar este acervo é reviver sua essência: sua força inextinguível e sua fragilidade humana. As provas de gravura são instantâneos que congelam as dobras do processo criativo. Cada impressão testemunha essa dualidade; formas que aspiraram à solidez, mas que confessam o desmanche iminente da vida, registrando as inquietações da tentativa de conter o efêmero. São testemunhos dessa busca.

Compartilhar essas múltiplas faces dela nesta exposição é, mais do que tudo, um ato de amor. É deixar que seu universo interior, tão complexo quanto um cubo é simples, continue a nos desdobrar.

Patrício Salgado

"Duentes" (1980) gravura em metal sobre papel algodão